Angela Davis: ativista anticapitalista mostra o caminho da luta

Em conferência em Salvador, a professora falou sobre a importância do enfrentamento feito pelos movimentos de negras feministas contra o machismo, o racismo e outras formas de opressão

Quem ouve Angela Davis, sem saber de sua história, não imagina a coragem e a liderança revolucionária que estão por trás da voz calma e do constante sorriso na face. Filósofa e militante do feminismo negro, a estadunidense proporcionou ao povo baiano, nesta terça-feira (25), uma noite histórica de força e resistência. Centenas de ativistas, sobretudo, mulheres do movimento de negritude, compareceram à conferência, que não por acaso ocorreu no Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. O evento fez parte do Julho das Pretas, organizado pelo Instituto Odara, Coletivo Angela Davis, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher e relações de gênero – NEIM / UFBA e UFRB. A atividade foi realizada no salão nobre da Universidade Federal da Bahia, em Salvador.

Aos mais atentos, o cabelo Black Power já demonstra sua ideologia, os cachos grisalhos dão o tom do tempo e mostram que ali existem muitas experiências vividas. Etapas de uma vida que, em sua maioria, foram na militância anticapitalista e antirracista. Conhecida como uma das principais lideranças mundiais do movimento feminista negro, Angela milita desde a década de 60 contra as discriminações social, racial e pelos direitos das mulheres. Foi na década seguinte, após sua contravertida prisão, que a luta da ativista ganhou notoriedade, com milhares de apoiadores em todo o mundo. Davis já integrou organizações políticas como o Partido Comunista americano e o movimento Black Power e apoiou o Panteras Negras.

As primeiras análises da conferencista foram referentes ao atual retrocesso conservador, no cenário político mundial. Angela citou que a guinada à direita acontece em vários países da Europa, nos Estados Unidos, na América do Sul e, especialmente, no Brasil. Após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que denominou como “golpe antidemocrático”, Davis observou que os movimentos das mulheres negras brasileiras surgem como a melhor condição de resistência e mudança do país. Afirmou que as feministas estadunidenses viram com muita satisfação a reação nas ruas, proporcionada pela Marcha das Mulheres Negras, em 2016, que fizeram o enfrentamento ao governo Temer.

Após lamentar a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, Angela Davis ressaltou a resistência das negras. “Não podemos esquecer que apenas um dia após a posse do atual presidente, o movimento das mulheres negras levou à Washington três vezes mais manifestantes do que na posse de Trump”, afirmou. Naquele período, cerca de 5 milhões de mulheres, em todo o mundo, ocuparam as ruas em protesto contra o novo chefe de estado. Para se contrapor ao presidente, a ativista ressalta que a tarefa é resistir. Todos os dias acontecerá a resistência ao capitalismo, ao heteropatriarcado, ao preconceito, ao ataque do Capital ao meio ambiente.

Protagonismo feminino
De acordo com Angela Davis, após tantas décadas de luta, as mulheres finalmente começam a ser reconhecidas por manterem acesas as chamas da liberdade. Diferente do que acontece com outros modelos de lideranças, a protagonizada pelo sexo feminino não é baseada em carisma ou individualismo, mas enfatiza as intervenções coletivas e apelo às comunidades em luta. “A liderança feminina negra é fundamentalmente coletiva”, reforça Angela.
Segundo a ativista, outra característica fundamental trazida pelas lideranças feministas negras é a necessidade de ir além das questões de raça e classe. Torna-se importante superar o binário de gênero, pois é preciso incluir as mulheres trans, as encarceradas, as com deficiência e demais grupos minoritários.

Aprendendo com as brasileiras
Essa foi a sexta vez que Angela Davis veio ao Brasil, sendo a sua quarta visita à Bahia. Em seu relato, ela citou que, embora haja muitas figuras nos Estados Unidos associadas à luta do movimento negro, que têm suas ideias difundidas pelo mundo, as estadunidenses precisam aprender com as histórias de resistência das negras brasileiras. Angela cita que a antropóloga feminista Lélia Gonzalez, antes do conceito de interseccionalidade, já pautava que deveria existir a complexa relação classe, raça e gênero, mas, também com a inclusão das negras e dos povos indígenas.

Ainda sobre as lutas das negras brasileiras, Davis cita que também é necessário aprender o poder feminino negro presente no candomblé. A organização política das domésticas em sindicatos também recebe especial atenção da conferencista. Ela relata que, nos Estados Unidos, a categoria das domésticas ainda não teve êxito na organização enquanto classe trabalhadora.

Complexo industrial carcerário 
Presa em 1970, por um suposto auxílio a réus negros, em uma tentativa da fuga de um tribunal, Angela sentiu na carne o que era a vida na cadeia. Após julgada e absolvida, foi solta meses depois, com massiva repercussão na imprensa mundial. Para ela, o sistema carcerário é um “vasto depósito de lixo, no qual as pessoas sem importância são descartadas”, sendo que os indivíduos identificados como sem relevância são, geralmente, as mulheres negras, os muçulmanos e os indígenas.

Para ratificar o que ela chama de indústria carcerária, traz dados alarmantes: os Estados Unidos aprisionam 1/4 da população carcerária do mundo. Das presidiárias femininas, aproximadamente 1/3 também estão em solo norte americano. Já no Brasil, 2/3 das mulheres encarceradas são negras. De acordo com Davis, o cenário reflete o tipo de sistema capitalista global e como ele negligencia o ser humano em seus pontos mais básicos: moradia, educação, saúde, entre outros.

Reprodução da violência
A violência cotidiana cometida, geralmente, por maridos e namorados também foi trazida à discussão. Na análise de Angela, a violência doméstica está diretamente ligada à violência estatal e policial. “Temos que acabar com o encarceramento como forma principal institucional de punição. Temos que ter formas de justiça decoloniais, que não tenham como principal método a violência”, falou a professora.

Resistência da mulher negra
Já próximo ao final da conferência, Angela Davis reforçou sobre a necessidade de permanecer em resistência, principalmente, em período de aumento do conservadorismo.

Na ótica da ativista, no Brasil atual de medidas reacionárias, o mito da democracia racial foi completamente exposto. Este momento é a chance para que o movimento das mulheres negras possa ser assimilado. “Não queremos ser inclusas em uma sociedade racista, misógina e heteropatriarcal. Dizemos não à pobreza e não queremos ser contidas dentro de uma estrutura capitalista, que visa o lucro e não o ser humano”, explicou a revolucionária Davis.

Angela diz reconhecer os que defendem as reformas institucionais e carcerárias, mas frisa que isso não basta. A militante finaliza convocando todas à mudança, por meio da união para além das fronteiras geográficas, na construção do feminismo radical negro decolonial. Uma luta coletiva que grita “sim ao feminismo abolicionista e não ao feminismo carcerário”.

*Murilo Bereta, da Aduneb SSind. especial para o ANDES-SN

 

Fonte: Aduneb SSind

This article was written by Ascom