Grupo liderado por prefeito invade seminário e ameaça participantes na UFPA

Atividade discutiria o resultado de pesquisas sobre os impactos socioambientais das atividades da mineradora canadense Belo Sun, na região já afetada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte

Um grupo de cerca de 40 pessoas impediu a realização, na Universidade Federal do Pará (UFPA), do seminário “Veias Abertas da Volta Grande do Xingu”. A atividade aconteceria no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) e apresentaria e discutiria o resultado de pesquisas sobre os impactos socioambientais das atividades da mineradora canadense Belo Sun, na região já afetada pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

De acordo com nota de repúdio divulgada pela Associação dos Docentes da UFPA (Adufpa – Seção Sindical do ANDES-SN) e pela reitoria da universidade, o deputado estadual Fernando Coimbra (PSL) e o prefeito do município de Senador José Porfírio, Dirceu Biancardi (PSDB), acompanhados do vice-prefeito e de três vereadores daquele município, lideraram o grupo que, de forma violenta, impediram a realização da atividade acadêmica programada e impossibilitando que os responsáveis pelo debate ou quaisquer pessoas saíssem do auditório para entrar em contato com o serviço de segurança institucional ou com a Administração Superior da UFPA.

Os relatos de professores, estudantes e pesquisadores presentes no auditório citam ameaças, agressões verbais, cerceamento de fala e até cárcere privado, em uma reprodução de práticas coronelistas, por parte de quem se utiliza de prestígio e poder para impor, na força, grandes projetos que destroem a biodiversidade da Amazônia.

De acordo com informações da agência de notícias Amazônia Real, agredida verbalmente pelo prefeito Dirceu Biancardi, a coordenadora do seminário, professora doutora Rosa Acevedo Marin, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), prestou queixa à Polícia Federal (PF) por ameaça. A universidade pediu garantia de segurança à professora e aos estudantes, a maioria de doutorado, que se sentiram também ameaçados.

Em nota, a reitoria repudiou a ação e declarou que “a agressão à UFPA foi também uma agressão ao Estado Democrático de Direito e mais uma expressão do obscurantismo que anda a ameaçar as mais importantes instituições do país. A UFPA ressalta que está solicitando a apuração detalhada dos fatos citados, assim como a devida responsabilização dos autores da agressão. Por fim, reitera que não será tolerante com qualquer tentativa de intimidação de membros da comunidade universitária e tomará as providências necessárias para resguardar o seu direito à livre manifestação e à difusão do conhecimento aqui produzido.”

A Adufpa SSind. afirmou que a violência “trata-se de um grave ataque à democracia e à autonomia universitária, assegurada no artigo 207 da Constituição Federal. É inaceitável que a Universidade, que deveria ser lócus primordial do debate democrático, do pensamento crítico e da pesquisa socialmente referenciada, seja palco do cerceamento do livre-pensar, principalmente nesta conjuntura em que a sociedade brasileira está tão carente de criticidade, base fundamental para conter os retrocessos e a retirada de direitos.”

A seção sindical do ANDES-SN manifestou “irrestrita solidariedade aos docentes, estudantes e pesquisadores ameaçados, em especial à professora Rosa Acevedo, colocando à disposição nossa assessoria jurídica e a estrutura de nosso sindicato, a fim de assegurar que nossas pesquisas sejam desenvolvidas sem qualquer cerceamento, seja por parte do mercado, dos governos ou de políticos travestidos de jagunços.”

Ainda segundo a Amazônia Real, o Ministério Público Federal do Pará, através da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, já solicito que a Polícia Federal investigue atos de violência.

Em entrevista à agência Amazônia Real, a professora Rosa Acevedo Marin contou que as ameaças que ela e os pesquisadores sofreram não são de agora. Ela disse que sua preocupação maior é com relação aos povos tradicionais do Rio Xingu e os possíveis impactos que essas populações podem vir a sofrer com a exploração do ouro.

“Esse esquema de coação é muito bem articulado. O evento era acadêmico, não tinha necessidade de notificarmos alguém da prefeitura. Em outro evento que realizamos na Universidade Estadual do Pará (UEPA) havia pessoas filmando todos que estavam no local e nesse da UFPA também, o que nos faz acreditar que eles podem estar marcando determinadas pessoas para posteriormente ameaçá-las”, contou.

Rosa disse que, no dia 23 de novembro, pesquisadores da UFPA tentaram apresentar um estudo sobre o impacto da mineradora na sede do município de Senador José Porfírio, ao lado de integrantes do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Na ocasião, eles também foram intimidados pelo prefeito Dirceu Biancardi.

“Eles podem nos ameaçar, mas vamos continuar realizando o trabalho. Se porventura a mineração iniciar nada ficará no município. Em 12 anos – que é o tempo que eles têm para realizar a exploração – não será feito nada pela população. Nada vai ficar para quem mora lá e os prejuízos serão incalculáveis para as populações tradicionais e o meio ambiente”, lamenta.

A professora afirma que são muitos os prejuízos, mas a limpeza do ouro libera resíduos tóxicos que em contato com o rio matariam inúmeras espécies da biodiversidade. “Precisamos refletir sobre os impactos da extração mineral e os prejuízos que ela irá acarretar”, defende Rosa Acevedo Marin.

* com informações e imagens da Agência Amazônia Real e Adufpa SSind.

Fonte: ANDES-SN