Grito dos Excluídos denuncia sistema neoliberal que impõe exclusão e violência ao povo pobre

Desigualdade gera violência: basta de privilégios. Com este lema, o Grito dos Excluídos levará para as ruas neste dia 7 de setembro a denúncia dos mecanismos sociais que impõem exclusão e violência aos trabalhadores e ao povo pobre do país. Será a 24ª edição da mobilização organizada anualmente neste data por movimentos sociais, Pastoral Operária, Jubileu Sul, entre outras organizações.

A coletiva de imprensa sobre a mobilização deste ano, realizada na última quinta-feira (30), contou com a presença de Bruna Silva, moradora do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, mãe do menino Marcus Vinícius, morto pela polícia no dia 26 de junho. Nada mais simbólico da situação imposta a milhões de famílias que moram nas periferias pelo país.

Marcus foi morto pela polícia quando estava a caminho da escola. Era estudante da rede municipal de ensino do Rio, estado que está sob intervenção militar/federal desde o início do ano. Segurando o uniforme do filho manchado de sangue, Bruna afirmou: “se o meu filho hoje não está aqui é porque ele foi excluído pela Polícia Civil do Rio de Janeiro”, disse.

“Não houve troca de tiro. E quando eu falo que a polícia é a assassina do meu filho é porque eu sei. O meu filho estava com vida na UPA [Unidade de Pronto Atendimento] e me disse “mãe, eu tomei um tiro da polícia”. Essa frase fica se repetindo na minha cabeça. Ele já tinha tomado uma carreira [de tiros] do helicóptero, e se eu soubesse que ele estava debaixo daqueles tiros, eu também estaria morta, porque iria atrás dele. Eles acham que vão matar preto, favelado e vai ficar por isso mesmo, não vai não, porque a gente tem voz”, disse a mãe que trocou o luto pela luta.

                   Foto: Luciney Martins/Jubileu Sul

Bruna tem denunciado a truculência policial nas favelas e por isso tem sido perseguida por policiais. Seu telefone foi grampeado. “Eu tenho medo sim, mas não vou deixar de denunciar, porque isso não pode se repetir com o filho de mais ninguém. Essa dor atingiu meu útero. Minhas lágrimas agora são frias, de luta”, disse a mãe.

Para o economista Plínio de Arruda Sampaio Filho, a violência que mata 62 mil pessoas no Brasil é o resultado da administração da barbaridade, com a crescente exploração dos mais pobres e da militarização. “As vítimas são os mais pobres e 70% deles são negros”, lembrou.

Ainda, segundo o economista, a desigualdade social que existe e que mais uma vez o Grito dos Excluídos denuncia, é resultado de um sistema que não enxerga e pauta as necessidades de sua população e sim a manutenção do sistema atual que exclui e promove a barbárie aos mais pobres. “Na economia, essa barbárie, é o chamado ajuste fiscal, o ataque à previdência, à política pública”, disse.

“A população tem voz quando está nas ruas, quando está mudando, consciente e organizada. A burguesia já falou o projeto dela: o avanço da barbárie e a intervenção militar, porque quando tem que segurar a pobreza, os estudantes e os movimentos sociais, eles chamam os militares”, denunciou o economista que enxerga as eleições de 2018 como uma fraude.

Para a socióloga Rosilene Wansetto, uma das coordenadoras do Grito, enquanto a PEC dos gastos [EC 95] não for revogada nada de diferente poderá ser feito no país. “É preciso que as pessoas questionem qual são as prioridades da população brasileira. Por que congelar investimentos na Saúde e Educação por 20 anos? Para que o Estado brasileiro está servindo?”, questionou a socióloga, que também denunciou a presença militar do Estado nas comunidades e favelas brasileiras.

Para dom Eduardo Vieira dos Santos, bispo da Região Episcopal Sé da Arquidiocese de São Paulo e representante da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na coletiva, as denúncias trazidas pelo Grito são pertinentes, porque temos uma sociedade excludente.

“Uma grande camada da sociedade vive à margem dessa mesma sociedade, sem direito à moradia, sem direito à alimentação adequada, sem direito à saúde, ao trabalho, e todos esses aspectos fazem parte da vida da dignidade humana. Enquanto tivermos uma parcela, que seja um da sociedade que passe por essa situação, há sim sentido no Grito dos Excluídos, ainda que esse excluído não seja o que grite, mas os seus irmãos devem gritar por ele”.

O Grito dos Excluídos acontece em várias cidades do país. A versão mais antiga é realizada na cidade de Aparecida (SP) em conjunto com a Romaria dos trabalhadores e trabalhadoras.

Na cidade de São Paulo estão confirmados dois atos com concentração a partir das 9h. Um deles acontece na Praça da Sé, e o outro na Praça Oswaldo Cruz, que terminará no Parque Ibirapuera.

Com informações Jubileu Sul